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07-04-2018 10:37

Põe o teu dedo aqui!

 

 
 
O grande pintor barroco italiano, Caravaggio, retratou, com beleza, umas das páginas da Sagrada Escritura narrada pelo evangelista João. Trata-se do episódio do encontro de Jesus com Tomé. Este não havia crido ao escutar os outros apóstolos relatarem a aparição do Senhor Ressuscitado. Ao retornar de novo, Jesus vai-lhe ao encontro e lhe diz: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!”.
 
A obra de Caravaggio, com um realismo especial, faz-nos imaginar toda a cena. Jesus convida Tomé a crer e proclama bem-aventurados aqueles que crêem sem ter visto. Tomé não foi o único a não acreditar. Na verdade, ele representa tantos outros que tiveram dificuldade em crer. Representa também a nós, que por vezes titubeamos na fé.
 
Fala-se também que o Tomé da obra de Caravaggio é o símbolo da ciência moderna, retrata o espírito da época no qual era digno de fé aquilo que pudesse ser comprovado. Jesus exalta o conhecimento que provém da fé e diz que mais feliz não foi aquele que tocou, que viu, mas aquele que não viu e creu. Este conhecimento vem de Deus, é dom. Toda a sabedoria deste mundo, como afirma o apóstolo, é loucura diante de Deus (cf. 1Cor 3,19).
 
Queremos continuar experimentando a alegria do viver na fé e nunca deixar que a sabedoria deste mundo torne-se motivo de orgulho para nós. Mais ainda, queremos nos aventurar na alegria de viver uma fé que se traduz em amor. Sem este tudo se torna vão. Mais uma vez, o grande Paulo nos diz: “Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda ciência, ainda que tivesse toda fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse caridade, eu nada seria” (1Cor 13,2).
 
Busquemos, pois, tocar o Senhor, por o nosso dedo em seu lado, estender a nossa mão, não para acreditar, mas na verdade para experimentar o seu amor sem fim.  Como nos diz o Papa Bento XVI, é a partir do olhar daquele lado trespassado de Cristo, de que fala João, que o cristão encontra o caminho do seu viver e amar.
Queremos pedir ao Senhor Ressuscitado que nos esconda no seu lado aberto, nessa sua chaga de amor para bebermos dessa fonte do amor sem fim, fonte de onde jorraram sangue e água, expressão justamente do amor que se dá e se consome incondicionalmente.
 
Fazemos parte de uma sociedade, que dentre tantas outras dificuldades, vive, por vezes em meio a opulência, uma carência de amor. Somos carentes e marcados por tantas lacunas. A falta do sabor do amor, por vezes, nos faz amargos em nossas relações. Queremos tocar aquele lado aberto para sermos curados das nossas feridas e preenchidos do amor que redime e resgata.
 
Queremos tocar o lado aberto, para crer com as mãos, sendo solidário a tantos irmãos, abrindo o coração e as mãos. Queremos tocar essa chaga de amor para sermos portadores da força terapêutica desse amor que cria e recria, faz e refaz. Queremos tocar a fonte do amor sem fim para vivermos a nossa vocação de homens e mulheres que entendem que o seu viver tem como medida esse amor que se derrama por completo do lado aberto de Jesus.
Pe. Pedro Moraes Brito Júnior