Untitled Document


11-11-2017 23:12

O sentido esponsal do corpo

 
 
O nosso corpo é um verdadeiro microcosmo, uma realidade complexa e a compreensão do seu dinamismo fez com que a ciência se especializasse em vários ramos para não somente entender o seu funcionamento, mas aprimorá-lo e, sobretudo, exercer uma missão terapêutica perante as suas possíveis disfunções.
 
Diante do corpo, somos chamados a maravilhar-nos, percebendo a grandeza da sua realidade. Sem dúvida alguma, a estrutura corporal humana é uma das mais rebuscadas do mundo animal. Trata-se de uma engrenagem de elevada perfeição que manifesta a excelência do homem. Sim, somos uma grande maravilha criada por Deus!
 
Como diz o salmista, no seio materno o Senhor nos teceu (cf. Sl 139,13), chamou-nos à vida, insuflando sobre nós o seu Espírito. Foram-nos dadas a realidade espiritual, a alma, e a realidade material, o corpo. Somos, desse modo, um espírito corporificado e um corpo espiritualizado em perfeita união.
 
O corpo, enquanto realidade que nos foi concedida, trata-se de um dom que somos chamados a agradecer e a cuidar. Mas do que algo que possuímos, é uma realidade na qual existimos, que nos configura e nos constitui. Somos um corpo! Através dele, podemos manifestar nossos pensamentos e ideias, comunicar afetos, sentimentos e emoções, ir ao encontro das pessoas e manifestar-lhes, nossa amizade e nosso amor. 
 
O nosso corpo traz consigo um significado que deve condicionar as nossas expressões corporais. Fomos chamados à vida para estabelecer relações e fazer dom de nós mesmos no amor. O corpo traz, assim, um sentido esponsal. Indica que nossa existência não é para a solidão, mas para estabelecer comunhão no amor. “Sozinho o homem não se realiza totalmente a sua essência. Ele só a realiza existindo ‘com alguém’ – e, ainda mais profunda e completamente, existindo ‘para alguém’”.
 
Esse significado do nosso corpo deveria impregnar a suas expressões. Somos chamados a amar com o corpo que somos. A primeira consequência é que a vivência do amor não pode ser algo platônico, nas nuvens. Exige concretude que se exprime através das manifestações corporais. O amor não pode permanecer somente no nível das ideias. Deve ser vivido na totalidade de nosso ser. Não podemos ficar parados. É preciso colocar o corpo em ação, para que o amor também tenha dinamismo e se torne tangível.
 
É preciso superar uma vivência fruto da mentalidade ou da educação que anula o nosso corpo e faz-nos permanecer como verdadeiras estátuas, incapazes de fazer as pessoas sentirem, muito intensamente, o que elas representam e significam para nós.
 
Necessário se faz pôr todos os membros em movimento para dizer e fazer ouvir palavras que adoçam o coração, olhos capazes de contemplar as diversas moções interiores que se manifestam no rosto do outro, mãos e braços, que através do toque, acalmam, acariciam e fazem sentir, não apenas o calor do corpo, bem como o da alma.

 

 
Nosso corpo, essa dádiva tão preciosa, tem como vocação ser sacramento do amor. Ele existe para além dele mesmo. Não apenas evoca o amor, mas o torna presente. Na verdade, esse foi o movimento de Deus: o Amor se fez carne, tornou-se corpo, assumiu um rosto, manifestou-se em palavras e gestos que geraram vida nova, alegria e realização em muitos corações. Dessa forma, indicou-nos o significado essencial do nosso corpo: tornar-se amor em suas expressões.
 
Pe. Pedro Moraes Brito Júnior