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05-12-2017 00:41

O Advento

 

Com o tempo do advento, damos início a um novo ano litúrgico na vida da Igreja. Trata-se de um novo itinerário de graça que é proposto a toda comunidade eclesial e, sobretudo, a nós, pastores do povo de Deus, os quais somos chamados, através do ano litúrgico, a ser verdadeiros mistagogos, homens que conduzem as pessoas a descobrir e penetrar na inefável riqueza do Mistério de Deus.
O tempo do advento, com a sua dupla vertente escatológica e natalícia, torna-se um momento rico e denso para aprofundarmos a nossa espiritualidade e ministério presbiterais. Pode-se dizer que o advento se apresenta no cenário litúrgico como um tempo que nos recorda dimensões importantes para a nossa vida e suscita também atitudes interiores que devem caracterizar o nosso viver.
Em primeiro lugar, destacamos a dimensão escatológica. Não podemos nos esquecer que já vivemos no novo tempo que foi inaugurado pela morte e ressurreição do Senhor. Fazemos parte de seu povo, a Igreja, a comunidade que leva adiante a restauração iniciada por Cristo; que aguarda com esperança a volta do seu Senhor e neste ínterim procura construir quanto espera receber plenificado no final dos tempos.
Não podemos perder de vista a dimensão histórico-sacramental da nossa fé . Esta tem sobretudo sua razão de ser no evento do Verbo feito carne que habitou entre nós. Deus abaixa-se para elevar o homem, vem ao seu encontro para salvá-lo integralmente. A salvação não é algo abstrato, mas é construção do homem todo e de todos os homens.
É importante ter presente também a dimensão missionária que o tempo do advento nos recorda para o nosso viver cristão. A Igreja encontra a sua razão de ser e de sua missão no mistério do advento de Cristo, enviado pelo Pai; no mistério do advento do Espírito Santo, enviado do Pai e do Filho.
O que estas verdades implicam para o nosso viver presbiteral?
Fazendo parte da comunidade da espera e da esperança , a comunidade escatológica, mais do que os outros fiéis, somos chamados, como líderes do povo, a ser Profetas da esperança. Neste sentido, é interessante ter presente a figura do profeta Isaías. “As páginas mais significativas do livro de Isaías são proclamadas durante o advento e constituem um anúncio de esperança para os homens de todos os tempos”. Nele se encontra “um eco da grande esperança que confortou o povo eleito durante os séculos duros e decisivos da sua história”.
À luz do exemplo de Isaías, cada um de nós é convidado a dar razões da esperança.em Cristo Isto implica em levar em consideração na nossa pregação as realidades últimas do Reino de Deus, da Parusia, pois o homem atual é assinalado por um interrogativo escatológico na sua procura pelo sentido final de todas as coisas e da história humana. Mas também, em um contexto marcado pela opressão e injustiça, isto implica em efetivamente e concretamente lutar pelos valores do Reino pregado por Jesus. Profetas da esperança que consolam o povo em meio as suas dores e sofrimentos e testemunham que mais forte que o mal é o bem e que a justiça triunfará sobre a injustiça.
Como atitude interior deste tempo de advento e de toda a nossa vida, somos chamados a viver a alegre espera do Senhor que vem e que levará a plenitude a sua obra. É importante que o povo possa sentir em nós aquela alegria que nasce da certeza de que o Senhor é fiel, zela por nós e tem sob o seu domínio os desígnios da história. O caráter de boa-notícia do Reino implica que ele deva ser feito com alegria e produza alegria. Esta é um elemento essencial que deve estar presente tanto naquele que anuncia como naquele que recebe a mensagem.
Como membros da comunidade escatológica somos chamados a esperar o Senhor que vem no dinamismo que nos aponta um outro personagem do advento: João Batista. Esta figura que aparece no segundo e terceiro domingos deste tempo litúrgico nos indica o nexo existente entre Reino e conversão. Domingo passado, escutamos o seu apelo: “Convertei-vos porque o Reino dos Céus está próximo”.
Somos chamados a ser Profetas que anunciam a vinda do Reino, salientando, porém, que este exige conversão e luta contra o pecado. Trata-se de fazer compreender e também conduzir a comunidade cristã a viver a própria existência em um dinamismo pascal, de continua passagem daquilo que nos impede de sermos à medida de Cristo Jesus. A proximidade do Reino implica uma decisão radical, uma mudança na forma de existir que não se alcança a partir da inércia da existência.
Por isto que dentre as atitudes interires é-nos proposta aquela da vigilância. Permanecer vigilante significa estar atento aos apelos que Deus nos faz, aos seus sinais e não conformar-se com uma vida baseada no mínimo. O desejo de
conversão que nos leva à vigilância nasce da certeza que também a nós Deus nos chama a realizar grandes coisas e para cada um de nós tem um plano de amor. Viver em contínuo dinamismo pascal, significa reconhecer que para o amor não existe fronteiras e a mediocridade não pode encontrar morada em nossos corações.
O advento celebra a vinda de Jesus Cristo no tempo e na história dos homens para trazer-lhes a salvação. Nosso empenho é tornar atual a realidade desta vinda, possibilitando, assim, o encontro das pessoas com Cristo, pois somente n’Ele o mistério do homem se torna claro e este descobre a sua altíssima vocação. No processo evangelizador deste novo milênio é imprescindível conduzir os fiéis a uma experiência pessoal com o Senhor, pois somente este encontro desencadeia um autêntico processo de conversão, comunhão e solidariedade. A Ecclesia in America aponta para três lugares para o encontro com Cristo: A Palavra, a Liturgia e as pessoas, especialmente os pobres, com os quais Cristo si identifica.
Além de possibilitarmos o encontro dos homens com o Senhor é de fundamental importância fazer acontecer o advento de Jesus, dando continuidade à dinâmica que o Natal nos indica: a da encarnação. Deus convida o homem a salvação, fazendo-se um com ele. Somos chamados a viver a dinâmica da encarnação, procurando sobretudo ser presença em meio ao nosso povo, presença efetiva e afetiva que se deve traduzir na caridade pastoral a qual deve informar o nosso viver de presbíteros. Essa encarnação deve se manifestar em modo privilegiado nos pobres, os preferidos de Jesus. O hoje de Deus, a manifestação de sua vontade na América Latina é o mundo dos pobres. Encarnar-se neste mundo significa não
somente estar nesta realidade, mas deixar-se encontrar por Deus, que está escondido nela.
É neste sentido que no tempo do advento somos chamados a viver como atitude interior, como expressão concreta da caridade pastoral, o acolhimento. Uma carta dos bispos do nosso regional exortava os sacerdotes “a colocar sentimentos e atitudes de acolhimento em lugar de relevo na sua pastoral”. A carta depois de sugerir formas concretas de acolhimento e até mesmo uma pastoral do acolhimento finalizava com as seguintes palavras: “Uma Igreja acolhedora, graças a sacerdotes verdadeiramente acolhedores, é uma Igreja capaz de anunciar Jesus com a chance de vê-lo acolhido”.
Sem dúvida Maria, uma das figuras relevantes do advento, é para nós neste aspecto modelo. Acolhendo o projeto de salvação, a Virgem de Nazaré “transformou a espera em presença e a promessa em dom”. Que Maria nos ajude a sermos também nós caminho que conduz a Cristo neste novo milênio. Amém.
 
Pe. Pedro Moraes Brito Júnior