Tentados a não ser

O primeiro domingo da quaresma sempre nos apresenta o texto que narra as tentações de Jesus, que após o seu batismo é conduzido, pelo Espírito, ao deserto e por lá permanece quarenta dias e é tentado pelo demônio.
A narração bíblica exprime uma realidade fundamental da nossa existência, que é também assumida por Jesus: durante o percurso da nossa vida somos continuamente tentados. Mas em que consiste basicamente essa tentação? Em não realizar o projeto de Deus em nossas vidas, que consiste em ser filhos no Filho.
Por conseguinte, o primeiro domingo quaresmal interpela-nos sobre o que desejamos ser, que tipo de ser humano almejamos construir. Aquele pensado em Deus ou aquele que a cultura atual delineia? Jesus viveu justamente essa tentação enquanto Messias esperado pelo povo de Israel.
As propostas feitas pelo demônio a Ele, na verdade, são contrapropostas diante do desígnio do Pai. Em outras palavras, diante de Jesus se colocava a questão: ser Messias conforme as expectativas do mundo ou conforme os planos de Deus.
É interessante perceber que essas tentações não são algo pontual, que aconteceu ali no deserto como uma etapa da vida de Jesus. A indicação do número quarenta quer ressaltar toda a existência, toda a vida. Jesus foi tentado durante toda a sua permanência na terra a não realizar a vontade do Pai. O mesmo acontece conosco. Durante a nossa existência somos continuamente postos a prova.
Ser filho na Sagrada Escritura significa, antes de tudo, ter em si a imagem do Pai. No batismo Jesus foi declarado filho. No nosso batismo também o fomos. Tornamo-nos imagem de Deus e a tentação dessa vida é não realizar essa imagem de Deus em nós, que foi manifestada sobremaneira em Jesus Cristo.
Somos imagem de um Deus que é amor, que se abre para ir ao encontro, que se doa, fazendo dom de Si mesmo e que encontra no serviço a forma concreta de exprimir esse amor.
As tentações são uma proposta que vai de encontro ao desígnio de Deus porque elas propõem um caminho marcado:

  • pelo modo de relacionar-se com as coisas, absolutizando-as (primeira tentação). O homem não só vive de pão. Para ser feliz não basta apenas que tenha saciado as suas necessidades materiais. O homem não é só comida e bebida. Não lhe basta apenas receber coisas. Há o
    perigo de uma vida materialista e consumista. Nas relações com as pessoas, mas do que dar- lhe coisas, precisamos dar-nos a nós mesmos;
  • pelo modo de relacionar-se com as pessoas, marcado, principalmente, pelo exercício do poder enquanto dominação do outro (segunda tentação). A proposta de Deus em seu Filho é que as nossas relações sejam marcadas pelo desejo de uma grandeza que começa por baixo,
    pelo lava pés, expressão de uma vida que se doa no serviço aos outros. É preciso não ceder à lógica da violência, da dominação, que pisa as pessoas e as faz trampolins para alcançar as metas pessoais.
  • pelo modo de relacionar-se com Deus, tornando-O um Deus para as nossas satisfações e para os nossos desejos (terceira tentação). Na verdade, buscamos uma forma de vivência espiritual, que ao invés de querermos ser conduzidos por Ele, procuramos dominá-lo, fazendo do Senhor, o Deus das nossas aspirações e desejos.


Na força da Palavra, da oração, do jejum e, principalmente da caridade ao próximo, somos convidados a reorientar, não somente nessa quaresma, mas em todo nosso percurso existencial, a nossa vida para que não cedamos as tentações, que na verdade se resumem em ser postos a prova em não cumprir o projeto de Deus, ou seja, tentados a não ser.

Pe. Pedro Moraes Brito Júnior

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